Por Mauro Henrique
Diretor de Estratégia na RHX
Existe um gap de 7% do PIB separando a maturidade de risco das empresas nacionais das potências globais. A pergunta é: quem está pagando essa conta?
Há uma assimetria silenciosa corroendo a competitividade da indústria e do varejo brasileiro. Ela não está na taxa de juros, nem na carga tributária. Está na forma como enxergamos a palavra Risco.
Se olharmos para os dados da OCDE e da Swiss Re, o mercado de seguros em economias maduras (EUA, Reino Unido, Alemanha) movimenta entre 9% e 12% do PIB. No Brasil, estagnamos na casa dos 3% a 4%.
A leitura rasa desses números sugere que o empresário brasileiro “economiza” em seguros. A leitura executiva, porém, revela um cenário muito mais perigoso: o empresário brasileiro está assumindo o risco no próprio balanço, muitas vezes sem saber.
Ao decidir não transferir o risco para o mercado segurador, a empresa brasileira torna-se, involuntariamente, sua própria seguradora. A diferença é que ela não tem as reservas técnicas para isso.
A Armadilha do Tangível
A raiz desse descompasso é cultural. No Brasil, o seguro empresarial ainda é visto sob a ótica patrimonialista do século XX: a necessidade de proteger o Ativo Tangível (o prédio, o estoque, a máquina, a frota). Protege-se o que já foi construído. O medo é o fogo, o roubo, o vendaval.
No entanto, o Allianz Risk Barometer (que mede as preocupações globais de CEOs) aponta consistentemente a Interrupção de Negócios (Business Interruption) como o risco número 1 ou 2 do mundo.
Por quê? Porque as economias maduras entenderam que tijolos se repõem, mas o Fluxo de Caixa não. Enquanto um CFO em Londres blinda o Lucro Líquido, o gestor brasileiro dorme tranquilo porque o prédio está segurado por “Valor de Mercado”.
É um erro de cálculo brutal. Em um sinistro severo, a matemática é impiedosa:
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30% do prejuízo refere-se à reconstrução física (prédio e máquinas);
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70% do prejuízo é a hemorragia financeira da operação parada (custos fixos).
Ao ignorar a cobertura de Lucros Cessantes ou contratá-la de forma protocolar, a empresa nacional está protegendo a casca e deixando o núcleo exposto a custos que não cessam:
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Folha de pagamento integral;
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Impostos e tributos fixos;
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Contratos vigentes com fornecedores;
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Perda de Market Share para a concorrência.
A Importação do Risco Jurídico
Para agravar o cenário, vivemos um fenômeno de importação de riscos. O Brasil caminha rapidamente para uma cultura de litigância similar à norte-americana, impulsionada por três fatores:
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Consolidação da LGPD: Onde o dado vazado vira passivo imediato;
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Proteção ao Consumidor: A inversão do ônus da prova contra a empresa;
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Rigor Trabalhista/Ambiental: Onde a responsabilidade atinge o CPF dos sócios.
Nos EUA, operar sem uma apólice robusta de Responsabilidade Civil (Liability) e D&O é impensável. Aqui, ainda vemos indústrias operando com coberturas de RC de R$ 100 mil, valores que não cobrem sequer as custas iniciais de um processo complexo.
Estamos importando o passivo jurídico do primeiro mundo, mas mantendo a proteção securitária de um mercado emergente. A conta não fecha.
De “Custo” para “Capital Contingente”
A mudança necessária não é de produto, é de mindset. Seguros corporativos não devem ser tratados na linha de “Despesas Gerais” do DRE, competindo com material de escritório.
O seguro bem estruturado é Capital Contingente. É o dinheiro mais barato que uma empresa pode acessar no momento de crise. É a garantia de que, se a fábrica parar, o balanço continua azul.
Na RHX, defendemos que a discussão sobre seguros deve sair do Departamento de Compras e subir para o Conselho de Administração. Não se trata de cotar preço, trata-se de auditar a continuidade do negócio.
A pergunta que deixo para o C-Level brasileiro é:
“Se sua operação parasse hoje por uma interdição externa, sua apólice atual garantiria o seu lucro ou apenas pagaria pelas paredes?”
O gap de 7% do PIB não é apenas um número estatístico. É a distância exata entre a fragilidade e a resiliência.
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